Praga ou bênção?

Tenho de confessar que não gosto de pessoas más.

Não gosto mesmo nada. São pessoas feias. Não, não estou a falar fisicamente.

São pessoas de coração feio, que são incapazes de agir sem interesse, incapazes de abrir a boca com algo que se aproveite, algo que seja positivo ou enriqueça quem está ao redor. Pessoas que minam os outros falando pelas costas e sorrindo pela frente.

Que falam da vida dos outros sem a conhecerem realmente.

Que semeiam conflitos, que atiram a pedra e escondem a mão.

Gostava tanto de poder dizer que não conheço ninguém assim.

Infelizmente não posso dizer. Conheço e tenho de lidar com elas.

Gostava de poder dizer que consigo lidar bem com isso.

Infelizmente também não.

Perdoem-me os que achavam que sim.

A verdade é que perante pessoas más a minha paciência é do tamanho de um grão de areia.

No entanto, consegui perceber que ao contrário do que pensava as pessoas más não são uma praga. Elas são uma bênção.

Por causa delas eu valorizo muito mais as pessoas boas que tenho na minha vida e algumas são mesmo tão boas!

Por causa das pessoas más eu percebo como sou grata por não ser amarga como elas.

Por causa das pessoas más eu percebo que tenho poder de escolher ignorar o que me faz mal e perdoar-lhes porque ao contrário delas eu sou feliz e não preciso de magoar os outros por ter um qualquer complexo de inferioridade.

Por causa das pessoas más percebo como é tão bom não ser como elas.

Por causa das pessoas más sou relembrada de como este mundo precisa de amor e que preciso sentir compaixão, principalmente pelas pessoas más.

Difícil eu sei mas quem disse que viver neste mundo era fácil?

A verdade é que só podemos pedir o que podemos oferecer.

Não posso pedir perdão a Deus quando falho se não estiver disposta a perdoar os que falham comigo.

Não posso pedir compaixão quando erro, quando sou incapaz de mostrar compaixão.

Não posso pedir amor, quando não tenho amor para oferecer.

A Bíblia diz num dos versículos no livro de Mateus que “ a boca fala do que o coração está cheio”

Tens gostado do que ouves quando falas?

Então cuida do teu coração.

Até breve

L.O

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Sejam todos os dias, dia do sorriso.

Sorriu com timidez.

Como se não estivesse habituado a que olhassem para ele a sorrir, talvez.

Roupas sujas, cabelo desalinhado, pele queimada pelo sol, olhar cansado.

Tem muito pouco, pelo que reparei..mesmo muito pouco.

De manhã toma um galão e come um pão com manteiga,  muitas vezes a única refeição quente que faz durante o dia.

– No inverno custa mais- diz, mas não em forma de queixume. Diz por ser apenas um facto.

No inverno efectivamente deve ser muito duro viver na rua.

Impossível para mim de compreender, que vivo numa casa confortável e quente.

Impossível para mim tentar perceber como será viver sem nada, porque tenho mais do que precisava.

Mas é possível para mim parar, dar bom dia, sorrir e ouvir.

Durante dias observei curiosa e sem possibilidade de não sorrir, por mais cinzento que o dia estivesse.

O Sr. Domingos guarda sempre metade do pão da manhã, que muitas vezes compra com muito custo para se alimentar, para dar às pombas que param no lugar onde dorme.

Senta-se no banco de madeira do costume e nem precisa de as chamar. Elas sabem porque razão ele está ali.

Parte pedaços de pão pequeninos, para dar para muitas. Nesse momento já tem o banco cheio de clientela J

Estica a mão e sorri..

A cumplicidade entre eles é tanta que comem da mão dele.

O sr. Domingos.. Aparentemente sem nada e no entanto com tudo.

Até breve

L.O

Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

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O dia em que conheci a Infância

2015/11/05

Quando entrei esta manhã no comboio estava longe de imaginar a surpresa que teria.
Havia apenas um lugar vazio na carruagem. Deixei-me estar em pé. De sorriso no rosto olhou para mim e perguntou:
– não quer sentar?
– Não, mas obrigada por perguntar – respondi.
Mal se sentou, a jovem que estava no lugar ao lado, levantou-se para sair e ela sem pensar duas vezes, sentou-se no banco que havia ficado vago e deu duas palmadas no assento a sorrir para mim: – agora este é pra si.
Grata pelo gesto sentei-me ao lado desta senhora que me cativou desde o primeiro dia em que a vi.
É ainda mais bonita perto.
Falou-me um pouco da vida dela, das amizades que já fez ali no comboio.
Deu uma gargalhada quando lhe perguntei se trabalhava no Porto.
– oh minha querida, estou reformada. Tenho 80 anos. Nem mais nem menos. Não parece? – perguntou de sorriso nos lábios.
Fiquei de queixo caído.
Disse-me que acha que o segredo é não parar. Deita-se à 1 da manhã e às 4h já está acordada e ansiosa por sair da cama.
Vem para o Porto assistir à missa e ajudar no que for possivel.
Foi muito feliz até ao dia em que um Avc lhe roubou o amor da sua vida e pai da sua única filha.
Tinha apenas 45 anos.
Lutou para criar a menina então com 15 anos, pagou a casa, sobreviveu, mas perdeu metade dela.
Passaram 35 anos.
– Faço o que posso para não pensar, mas quando paro..ainda dói. Tenho muitas saudades – disse de lágrimas nos olhos – está cá dentro, sabe?
O meu coração ficou pequenino.
Chegamos a S. Bento. Não dava para continuar a conversar comigo. Tinha o amigo para ajudar. O jovem invisual a quem acompanha todos os dias até ao fim da estação.
Sim.. É isso mesmo que estão a pensar.
Hoje conheci a Infância de 80 anos e garanto que fez o meu dia.

Até breve

L.O

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Colorir os dias

Colorir os dias com olhos de fé.

Escolher amar, mesmo quando posso escolher não o fazer.

Escolher amar sempre.

Escolher pintar o céu de azul quando ele teima em ficar cinzento.

Sorrir.

Perceber que mesmo que não entenda os golpes duros da vida, eles existem para me fortalecer.

Aceitar que todas as coisas acontecem por uma razão.

Ver para além do muro que coloco à minha volta quando me magoam.

Perdoar, sempre.

Acreditar sempre que o colo de Deus está lá, mesmo quando sinto que o caminho é feito a pé, por mim.

Entender que nada me pertence, apenas a ilusão disso.

Assumir que não posso mudar o que me acontece, mas sim a forma como enfrento, com coragem e fé.

Ser grata, todos os dias.

Até breve

L.O

Hand holding a heart
Hand holding a heart

Memórias que perduram

A memória é uma das capacidades mais incríveis que o ser humano possui.
É também uma das capacidades que vamos perdendo à medida que vamos envelhecendo.
Ao longo destes 38 anos que já vivi muitas são as memórias que guardo.
Algumas doces, algumas menos boas, algumas que espero nunca esquecer outras que gostava de poder apagar.
Hoje enquanto procurava uma fotografia, encontrei no baú algo me fez recuar até aos meus 8 anos de idade.
Guardo na memória os 4 anos de escola primária como algo que me fez muito feliz.
Menina dos papás assumida, foi com terrível desgosto que o vi o meu pai deixar-me pela primeira vez na escola primária da Amorosa, em 1983.
– Não quero ficar aqui. Quero ir para casa contigo – lembro-me de dizer.
Escusado será dizer que o meu desejo foi em vão.
Imagino que para o meu pai também não tenha sido fácil afastar-se enquanto me ouvia chorar.
A verdade é que fui muito feliz com a turma onde fui colocada.
Ainda hoje nutro uma estima muito grande pela D.Elizabete, uma professora querida e amiga dos alunos.
Olho para esta foto e infelizmente não tenho contacto com nenhum destes colegas, porém
consigo lembrar-me de 50% dos nomes e das personalidades.
Os das asneiras, os fala barato, as tímidas, as marias rapaz (grupo onde pertencia) e aqueles que faziam sempre queixa à professora.
Olho para esta foto e salta-me à vista duas coisas que ainda hoje mantenho: o sorriso feliz e o cabelo despenteado:)
Sou profundamente abençoada por ter tido uma infância feliz e amada e sou grata pelas memórias felizes que guardo desses tempos.
Com este blogue pretendo também criar memórias
Um dia, mesmo que já não me lembro de quem eu sou, acredito que irei sorrir ao ler cada um destes posts.

Até breve.

L.O

turma lídia