Em bicos de pés

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Se a vida é feita de opções, então escolho ser paciente.

A vida cobra demasiado aos impacientes, aos que andam sempre ansiosos, aos que de um dia para o outro querem tudo.

Ao longo de 38 anos a vida tem-me cobrado por causa da minha falta de paciência.

Frustração, lágrimas, dor, tudo tão desnecessário quando aprendemos a esperar e a acreditar pacientemente que tudo tem um propósito.

A verdade é que criamos demasiadas expectativas. Sonhamos muito, às vezes demasiado alto para a nossa estatura e queremos, a todo o custo, ficar em bicos de pés, como bailarinas, tentando chegar àquele lugar que tanto desejamos.

Mas às vezes não chegamos.. nem em bicos de pés.

Ficamos desiludidos, acreditamos que seria agora, porque merecemos, porque nos esforçamos, porque os outros conseguiram, porque faz sentido (mesmo que seja apenas para nós), porque sim.

E no meio de tanta ansiedade, de tantos planos, de tantos sonhos e tanta expectativa, de tantos porque eu ou porque não eu esquecemos de olhar para cima, lugar de todas as respostas.

Então se a minha vida é feita de escolhas, escolho lutar para ser paciente sempre que a vida  puxar o tapete debaixo dos meus pés.

A paciência carrega em si a serenidade de acreditar que tudo vai ficar bem, que as nossas feridas vão sarar, que os sonhos não realizados serão substituídos por outros que jamais ousamos sonhar.

Escolho ser paciente, mesmo que os meus sonhos nunca cheguem a ganhar a forma que sonhei.

Até breve.

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.”

Eclesiastes 3:1 – Bíblia Sagrada

L.O

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Amar os outros

Foi quando escrevi este texto na minha página facebook que senti que provavelmente seria giro criar um blog.

Nessa altura não avancei. Hoje faz todo o sentido que o partilhe aqui.

Espero que seja tão delicioso de ler como foi para mim poder contar-vos.

Até breve

19 Outubro 2015

Optei pelo comboio em vez do carro para ir trabalhar, por várias razões. Uma delas é poder ver com atenção coisas que de carro apenas consigo olhar sem prestar realmente atenção.
Apesar do rápido trajeto a paisagem é de cortar a respiração.
Com o passar dos dias comecei a reconhecer as pessoas que me acompanham habitualmente na minha viagem.
O senhor que deseja um bom dia a todos que estão na carruagem.
A miúda que todos os dias bebe um bongo e come uma sande de queijo.
O jovem invisual que se senta sempre no mesmo lugar.
A senhora de pele enrugada, que não mede mais de metro e meio e que com a sua alegria matinal enche aquela carruagem de boa disposição. Esta sra é sem dúvida a culpada de não estar a conseguir ler o livro que escolhi para me acompanhar nas viagens.
Não sei como se chama. Pelo que vou ouvindo percebi que a vida não foi meiga para ela, mas ela não perdeu a doçura, apesar de ser menina pra virar um homem do avesso se assim for necessário.
Vai sempre sentada virada pra frente pra não enjoar. Tem uma gargalhada muito bonita, daquelas que queremos ouvir mais. Quando chega a Campanhã começa a organizar as coisas pra se preparar pra sair na próxima. Olha para o jovem invisual. Conhecem-se do comboio pelo que percebi mas a ligação que criaram parece-me maravilhosa.
Paragem terminal: S. Bento.
Ele vai para junto da porta, ela aproxima-se.
-pronta para mais um dia? pergunta ele.
– vamos a isto, responde a olhar para ele de sorriso nos lábios.
Carrega no botão para a porta abrir e ajuda-o a descer.
Dá-lhe o braço e seguem caminho.
Percebi que ela sente que é essencial para ele naquele percurso mas a verdade é que ele sabe que é tão ou mais essencial para ela.
Ele tem quase o dobro do tamanho dela. Ela mais do dobro da idade dele. Seguem caminho sempre a rir e a conversar.
Acredito que através dos olhos dela ele tem visto coisas maravilhosas.
Acredito que de braço dado com ele a vida dela ganhou mais cor.
Fazem isto todos os dias.
Ganhei coragem e tirei-lhes uma foto porque sempre que os vejo me fazem lembrar que quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza vai mais longe e há pessoas sem as quais o caminho não tem graça alguma.

L.O

 

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Semanas sem fim

Cansaço

Estamos cansados.

Enfadados, esgotados, saturados de tudo e de nada.

Estamos oficialmente cansados.

Demasiadas horas enfiados num escritório ou numa loja a trabalhar, ou à procura de emprego que tarda em surgir.

Demasiadas horas de estudo, exames e trabalhos.

Demasiadas tarefas em casa depois de um dia de trabalho.

Muitos que exigem de nós atenção, e pouca atenção a nós mesmos.

Aceitamos mil e uma tarefas. Achamos sempre que conseguimos fazer ainda mais qualquer coisinha e depois passamos horas a reclamar que não temos tempo para nada.

Corremos para tudo e mesmo assim andamos sempre atrasados.

Vamos tendo sinais de que o nosso ritmo é demasiado para nós.

Optamos por ignorar.

Não ouvimos os conselhos que nos alertam para a necessidade de parar, respirar fundo, definir prioridades, cumprir uma tarefa antes de começarmos outra.

Optamos por não ouvir, porque nos achamos muito sábios e somos homens e mulheres cheios de certezas sobre tudo.

Até ao dia em que o nosso corpo nos obriga a parar.

Agora não estamos só cansados, estamos também doentes.

O que há para fazer tem de esperar. Agora estamos atentos, agora há tempo para parar e para cuidarmos de nós.

Agora tens tempo para perceber que já não tens saúde para gozar o tempo que tens.

Até breve.

L.O

 

“O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço…”

 

9-10-1934

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

 

 

Gratidão precisa-se.

Confesso que às vezes acho que a palavra obrigado não consegue exprimir tudo o que realmente pretendemos dizer.

Infelizmente também me atrevo a dizer que se tornará uma palavra que poderá facilmente cair em desuso.

Não seria de estranhar.. tantas outras palavras já caíram, numa sociedade tão pouco virada para os pequenos detalhes da boa educação.

A verdade é que somos cada vez menos gratos.

Quase como se tivemos permitido que nos convencessem que não precisamos agradecer por nada. O que temos, o que somos a nós o devemos.

Esta ideia de independência de tudo e de todos é apenas e só uma triste ilusão, que arrasta com ela uma série de ideias também elas completamente absurdas, de que uns são mais importantes, melhores e mais valiosos que outros e que cada um de nós se basta a si próprio.

Divagava eu neste assunto quando vejo uma noticia no jornal Público com o título “ A solidão faz mal ao coração. Literalmente.”

O artigo revela, entre outras informações,  que estudos anteriores já tinham associado a solidão a um sistema imunitário comprometido, pressão arterial elevada e até a morte prematura. Alerta ainda o estudo para o facto de solidão e isolamento poderem coexistir mas não serem a mesma coisa. A verdade é que podemos estar rodeados de pessoas e sentirmo-nos sós e estarmos completamente isolados e não sentirmos isso.

Vivemos numa sociedade onde temos pressa para tudo. O ritmo alucinante dos dias, rouba-nos anos de vida, rouba-nos tempo com os que amamos, rouba-nos tempo para nós mesmos, rouba-nos a saúde, a alegria e a serenidade.

Esquecemo-nos de agradecer, de olhar para os outros, de saudar, de orar uns pelos outros.

Esquecemo-nos de ser gratos pelo dia que nos foi concedido, pelo trabalho que tantas vezes nos sufoca, mas nos permite sobreviver monetáriamente, pelos alimentos, por todos os que nos amam e cuidam de nós.

Esquecemo-nos de promessas que fizemos, de planos que projectamos, de sonhos que deixamos nos fugissem entre dedos.

Esquecemo-nos de respeitar os outros e as suas diferenças.

Estamos cada vez menos gratos e mais sós, mesmo que o número de likes ou de amigos nas redes sociais nos tentem convencer do contrário.

A verdade é que temos muito pouco tempo, mas todas as oportunidades de mudar a forma como vivemos. Está nas nossas mãos aproveitar o tempo de maneira realmente útil.

Por tudo isto, dizer-vos que estou profundamente grata pela forma como receberam e acarinharam o meu blogue.

Que seja o inicio de um bela partilha entre nós.

Até breve.

L.O

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Porquê agora?

algodão

Se me perguntarem porque razão decidi criar um blogue neste momento, não saberei responder.

A verdade é que gosto de escrever. Gosto mesmo muito de escrever. Sou demasiado curiosa sobre as coisas que me rodeiam e quando algo, alguém, um gesto, uma música, um livro ou até um filme me comove ou inspira, torna-se difícil não o colocar por palavras.

Decidi por isso avançar..

Se quem decidir ler vai gostar, isso logo se verá..

Por agora apenas dizer-vos:

Olá, o meu nome é Lídia e acredito que o mundo é mesmo uma bola de algodão onde a doçura, a bondade, a generosidade, os sorrisos e o amor podem fazer realmente a diferença.

Até breve.

L.O