Sejam todos os dias, dia do sorriso.

Sorriu com timidez.

Como se não estivesse habituado a que olhassem para ele a sorrir, talvez.

Roupas sujas, cabelo desalinhado, pele queimada pelo sol, olhar cansado.

Tem muito pouco, pelo que reparei..mesmo muito pouco.

De manhã toma um galão e come um pão com manteiga,  muitas vezes a única refeição quente que faz durante o dia.

– No inverno custa mais- diz, mas não em forma de queixume. Diz por ser apenas um facto.

No inverno efectivamente deve ser muito duro viver na rua.

Impossível para mim de compreender, que vivo numa casa confortável e quente.

Impossível para mim tentar perceber como será viver sem nada, porque tenho mais do que precisava.

Mas é possível para mim parar, dar bom dia, sorrir e ouvir.

Durante dias observei curiosa e sem possibilidade de não sorrir, por mais cinzento que o dia estivesse.

O Sr. Domingos guarda sempre metade do pão da manhã, que muitas vezes compra com muito custo para se alimentar, para dar às pombas que param no lugar onde dorme.

Senta-se no banco de madeira do costume e nem precisa de as chamar. Elas sabem porque razão ele está ali.

Parte pedaços de pão pequeninos, para dar para muitas. Nesse momento já tem o banco cheio de clientela J

Estica a mão e sorri..

A cumplicidade entre eles é tanta que comem da mão dele.

O sr. Domingos.. Aparentemente sem nada e no entanto com tudo.

Até breve

L.O

Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

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O dia em que conheci a Infância

2015/11/05

Quando entrei esta manhã no comboio estava longe de imaginar a surpresa que teria.
Havia apenas um lugar vazio na carruagem. Deixei-me estar em pé. De sorriso no rosto olhou para mim e perguntou:
– não quer sentar?
– Não, mas obrigada por perguntar – respondi.
Mal se sentou, a jovem que estava no lugar ao lado, levantou-se para sair e ela sem pensar duas vezes, sentou-se no banco que havia ficado vago e deu duas palmadas no assento a sorrir para mim: – agora este é pra si.
Grata pelo gesto sentei-me ao lado desta senhora que me cativou desde o primeiro dia em que a vi.
É ainda mais bonita perto.
Falou-me um pouco da vida dela, das amizades que já fez ali no comboio.
Deu uma gargalhada quando lhe perguntei se trabalhava no Porto.
– oh minha querida, estou reformada. Tenho 80 anos. Nem mais nem menos. Não parece? – perguntou de sorriso nos lábios.
Fiquei de queixo caído.
Disse-me que acha que o segredo é não parar. Deita-se à 1 da manhã e às 4h já está acordada e ansiosa por sair da cama.
Vem para o Porto assistir à missa e ajudar no que for possivel.
Foi muito feliz até ao dia em que um Avc lhe roubou o amor da sua vida e pai da sua única filha.
Tinha apenas 45 anos.
Lutou para criar a menina então com 15 anos, pagou a casa, sobreviveu, mas perdeu metade dela.
Passaram 35 anos.
– Faço o que posso para não pensar, mas quando paro..ainda dói. Tenho muitas saudades – disse de lágrimas nos olhos – está cá dentro, sabe?
O meu coração ficou pequenino.
Chegamos a S. Bento. Não dava para continuar a conversar comigo. Tinha o amigo para ajudar. O jovem invisual a quem acompanha todos os dias até ao fim da estação.
Sim.. É isso mesmo que estão a pensar.
Hoje conheci a Infância de 80 anos e garanto que fez o meu dia.

Até breve

L.O

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Colorir os dias

Colorir os dias com olhos de fé.

Escolher amar, mesmo quando posso escolher não o fazer.

Escolher amar sempre.

Escolher pintar o céu de azul quando ele teima em ficar cinzento.

Sorrir.

Perceber que mesmo que não entenda os golpes duros da vida, eles existem para me fortalecer.

Aceitar que todas as coisas acontecem por uma razão.

Ver para além do muro que coloco à minha volta quando me magoam.

Perdoar, sempre.

Acreditar sempre que o colo de Deus está lá, mesmo quando sinto que o caminho é feito a pé, por mim.

Entender que nada me pertence, apenas a ilusão disso.

Assumir que não posso mudar o que me acontece, mas sim a forma como enfrento, com coragem e fé.

Ser grata, todos os dias.

Até breve

L.O

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Hand holding a heart

Memórias que perduram

A memória é uma das capacidades mais incríveis que o ser humano possui.
É também uma das capacidades que vamos perdendo à medida que vamos envelhecendo.
Ao longo destes 38 anos que já vivi muitas são as memórias que guardo.
Algumas doces, algumas menos boas, algumas que espero nunca esquecer outras que gostava de poder apagar.
Hoje enquanto procurava uma fotografia, encontrei no baú algo me fez recuar até aos meus 8 anos de idade.
Guardo na memória os 4 anos de escola primária como algo que me fez muito feliz.
Menina dos papás assumida, foi com terrível desgosto que o vi o meu pai deixar-me pela primeira vez na escola primária da Amorosa, em 1983.
– Não quero ficar aqui. Quero ir para casa contigo – lembro-me de dizer.
Escusado será dizer que o meu desejo foi em vão.
Imagino que para o meu pai também não tenha sido fácil afastar-se enquanto me ouvia chorar.
A verdade é que fui muito feliz com a turma onde fui colocada.
Ainda hoje nutro uma estima muito grande pela D.Elizabete, uma professora querida e amiga dos alunos.
Olho para esta foto e infelizmente não tenho contacto com nenhum destes colegas, porém
consigo lembrar-me de 50% dos nomes e das personalidades.
Os das asneiras, os fala barato, as tímidas, as marias rapaz (grupo onde pertencia) e aqueles que faziam sempre queixa à professora.
Olho para esta foto e salta-me à vista duas coisas que ainda hoje mantenho: o sorriso feliz e o cabelo despenteado:)
Sou profundamente abençoada por ter tido uma infância feliz e amada e sou grata pelas memórias felizes que guardo desses tempos.
Com este blogue pretendo também criar memórias
Um dia, mesmo que já não me lembro de quem eu sou, acredito que irei sorrir ao ler cada um destes posts.

Até breve.

L.O

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Em bicos de pés

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Se a vida é feita de opções, então escolho ser paciente.

A vida cobra demasiado aos impacientes, aos que andam sempre ansiosos, aos que de um dia para o outro querem tudo.

Ao longo de 38 anos a vida tem-me cobrado por causa da minha falta de paciência.

Frustração, lágrimas, dor, tudo tão desnecessário quando aprendemos a esperar e a acreditar pacientemente que tudo tem um propósito.

A verdade é que criamos demasiadas expectativas. Sonhamos muito, às vezes demasiado alto para a nossa estatura e queremos, a todo o custo, ficar em bicos de pés, como bailarinas, tentando chegar àquele lugar que tanto desejamos.

Mas às vezes não chegamos.. nem em bicos de pés.

Ficamos desiludidos, acreditamos que seria agora, porque merecemos, porque nos esforçamos, porque os outros conseguiram, porque faz sentido (mesmo que seja apenas para nós), porque sim.

E no meio de tanta ansiedade, de tantos planos, de tantos sonhos e tanta expectativa, de tantos porque eu ou porque não eu esquecemos de olhar para cima, lugar de todas as respostas.

Então se a minha vida é feita de escolhas, escolho lutar para ser paciente sempre que a vida  puxar o tapete debaixo dos meus pés.

A paciência carrega em si a serenidade de acreditar que tudo vai ficar bem, que as nossas feridas vão sarar, que os sonhos não realizados serão substituídos por outros que jamais ousamos sonhar.

Escolho ser paciente, mesmo que os meus sonhos nunca cheguem a ganhar a forma que sonhei.

Até breve.

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.”

Eclesiastes 3:1 – Bíblia Sagrada

L.O

Amar os outros

Foi quando escrevi este texto na minha página facebook que senti que provavelmente seria giro criar um blog.

Nessa altura não avancei. Hoje faz todo o sentido que o partilhe aqui.

Espero que seja tão delicioso de ler como foi para mim poder contar-vos.

Até breve

19 Outubro 2015

Optei pelo comboio em vez do carro para ir trabalhar, por várias razões. Uma delas é poder ver com atenção coisas que de carro apenas consigo olhar sem prestar realmente atenção.
Apesar do rápido trajeto a paisagem é de cortar a respiração.
Com o passar dos dias comecei a reconhecer as pessoas que me acompanham habitualmente na minha viagem.
O senhor que deseja um bom dia a todos que estão na carruagem.
A miúda que todos os dias bebe um bongo e come uma sande de queijo.
O jovem invisual que se senta sempre no mesmo lugar.
A senhora de pele enrugada, que não mede mais de metro e meio e que com a sua alegria matinal enche aquela carruagem de boa disposição. Esta sra é sem dúvida a culpada de não estar a conseguir ler o livro que escolhi para me acompanhar nas viagens.
Não sei como se chama. Pelo que vou ouvindo percebi que a vida não foi meiga para ela, mas ela não perdeu a doçura, apesar de ser menina pra virar um homem do avesso se assim for necessário.
Vai sempre sentada virada pra frente pra não enjoar. Tem uma gargalhada muito bonita, daquelas que queremos ouvir mais. Quando chega a Campanhã começa a organizar as coisas pra se preparar pra sair na próxima. Olha para o jovem invisual. Conhecem-se do comboio pelo que percebi mas a ligação que criaram parece-me maravilhosa.
Paragem terminal: S. Bento.
Ele vai para junto da porta, ela aproxima-se.
-pronta para mais um dia? pergunta ele.
– vamos a isto, responde a olhar para ele de sorriso nos lábios.
Carrega no botão para a porta abrir e ajuda-o a descer.
Dá-lhe o braço e seguem caminho.
Percebi que ela sente que é essencial para ele naquele percurso mas a verdade é que ele sabe que é tão ou mais essencial para ela.
Ele tem quase o dobro do tamanho dela. Ela mais do dobro da idade dele. Seguem caminho sempre a rir e a conversar.
Acredito que através dos olhos dela ele tem visto coisas maravilhosas.
Acredito que de braço dado com ele a vida dela ganhou mais cor.
Fazem isto todos os dias.
Ganhei coragem e tirei-lhes uma foto porque sempre que os vejo me fazem lembrar que quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza vai mais longe e há pessoas sem as quais o caminho não tem graça alguma.

L.O

 

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Semanas sem fim

Cansaço

Estamos cansados.

Enfadados, esgotados, saturados de tudo e de nada.

Estamos oficialmente cansados.

Demasiadas horas enfiados num escritório ou numa loja a trabalhar, ou à procura de emprego que tarda em surgir.

Demasiadas horas de estudo, exames e trabalhos.

Demasiadas tarefas em casa depois de um dia de trabalho.

Muitos que exigem de nós atenção, e pouca atenção a nós mesmos.

Aceitamos mil e uma tarefas. Achamos sempre que conseguimos fazer ainda mais qualquer coisinha e depois passamos horas a reclamar que não temos tempo para nada.

Corremos para tudo e mesmo assim andamos sempre atrasados.

Vamos tendo sinais de que o nosso ritmo é demasiado para nós.

Optamos por ignorar.

Não ouvimos os conselhos que nos alertam para a necessidade de parar, respirar fundo, definir prioridades, cumprir uma tarefa antes de começarmos outra.

Optamos por não ouvir, porque nos achamos muito sábios e somos homens e mulheres cheios de certezas sobre tudo.

Até ao dia em que o nosso corpo nos obriga a parar.

Agora não estamos só cansados, estamos também doentes.

O que há para fazer tem de esperar. Agora estamos atentos, agora há tempo para parar e para cuidarmos de nós.

Agora tens tempo para perceber que já não tens saúde para gozar o tempo que tens.

Até breve.

L.O

 

“O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço…”

 

9-10-1934

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).